
Valéria Roustin procurou minha ajuda para os seus medos. Achou que eu, por ser filósofo, poderia ajudá-la. Então eu a atendi. Ouvi suas histórias. Dei conselhos sempre que me procurou. Seu problema principal era um pavor mórbido de ratos. Ficamos tão amigos. Ela me apelidou amigavelmente de "meu psiquiatra". Eu a chamava de "minha paciente". Ouvir o outro é um dos melhores remédios e uma grande demonstração de amizade. Ela foi criada no município de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. O bairro onde morava quando criança não oferecia saneamento básico. O esgoto das casas corria em valas abertas nas laterais das ruas. Segundo ela, havia muito rato e lixo no local. A casa também não era de boa qualidade. Frequentemente os ratos entravam nos quartos e nas gavetas. Desde pequena ela ouviu histórias de que não se pode deixar fios de cabelo no chão, porque se o rato roer o cabelo da pessoa, ela fica doente da cabeça. Acho que queriam dizer que a pessoa fica esquizofrênica ou débil mental, isso a impressionou excessivamente, embora hoje, aos 68 anos, ela soubesse que se tratava de folclore, pois no caso de um rato roer o cabelo de alguém não vai criar uma patologia psicológica. Valéria Roustin me falou que, quando era adolescente, ao lado de sua casa moravam uns vizinhos e que um dos filhos dessa família ficou "maluco". Ele teria por volta dos 18 anos. Começou a falar, sem parar. Falava de guerra. Repetia o nome de Hitler muitas vezes. Gesticulava com violência. As pessoas diziam que o rato havia roído o cabelo dele. Também diziam que ele ficou "maluco" de tanto estudar. Acreditava-se que estudar muito pode ocasionar esquizofrenia. Disse-me ela: - "Acho que cresci sempre preocupada com meu cabelo. Mesmo agora que sou uma senhora, não vou ao salão. Eu mesma corto meu cabelo e cuido de dar um fim ao cabelo cortado, para que não haja perigo dos ratos roerem meus cabelos. Sempre tive muita queda de cabelo e vivo a catá-los quando caem. Não consigo olhar cabelos no chão e não pensar na questão dos ratos e da loucura. Quando vejo um cabelo no chão, pode ser na rua ou na casa de alguém, tenho mania de catá-lo. Já sei que não existe nenhuma razão para esse medo. Acredito que rato não rói cabelo. Mesmo se roer, a pessoa dona do cabelo roído não ficará maluca por causa disso. Assim como estudar não deixa "maluco". Mas tenho medo dos ratos subirem na minha cama para roer meus cabelos". Valéria Roustin sofreu durante anos com pesadelos de ratos roendo seus cabelos. Disse-me: - "Ainda hoje, não gosto de ver cabelo no chão. Vou e recolho. Na infância, minha mãe cortava meu cabelo em casa e tinha a preocupação de embrulhá-lo em jornal para só depois colocá-lo no lixo. Ela temia que os ratos roessem o meu cabelo e eu ficasse maluca. Bom! Acho que os ratos roeram o meus cabelos. Eu estou aqui me sentindo uma doida falando desse meu medo! Mas quero ficar curada!" Tenho a dizer que Valéria Roustin nunca se curou completamente, mas sabia que seu medo não tinha fundamento científico! Usei a história de Valéria Roustin para dizer que criamos apreensões que não se justificam e para demonstrar que a educação ainda é cheia de invenções culturais e sugestões psicológicas. O povo é hábil em criar e transmitir medos. Enquanto isso, o efeito coercivo dessas invenções culturais criam desastres psíquicos. Na educação, inventamos o medo com a intenção de submeter alguém a algo. Raciocinamos com argumentos folclóricos. Educar através de lendas, medos e castigo pode gerar prejuízo psicológico, criar bloqueios, inibições e surtos psicóticos.
Jornal O DIAS